Dacélia Brito Barrada
Graduanda de História na Universidade Estadual do Maranhão
Resumo:
Este artigo busca mostrar como se deu a contribuição de algumas mulheres para o movimento
modernista do início do século XX. Para isso iremos fazer um esboço da contribuição da Anita
Mafaltti, Tarsila do Amaral e Patrícia Galvão (Pagu) para tal movimento diante das transformações sociais que se iniciaram no final do século XIX.
Palavras chave: Modernismo, Arte brasileira, Tarsila do Amaral, Anita Mafaltti, Pagu.
Introdução
A Missão Artística Brasileira chega em 1816. Até então a arte era vista como um assunto de negros escravos e não de homens livres, pois era considerado um trabalho manual e nãointelectual pela elite brasileira1.
Mesmo com a inauguração da Academia de Belas Artes no Rio de Janeiro, as aulas eram realizadas meio que na informalidade, não havendo registros de mulheres que tenham estudado na Academia ou que exposto suas obras em Salões como era feito na época. A arte, para a mulher, continuava sendo aquela que era restrita ao lar, a arte de cozinhar, bordar, costurar dentre outros tudo isso para que pudesse bem representar o seu marido ou a sua família perante a sociedade2.
Com raríssimas exceções, até o fim do Século XIX no Brasil é difícil ver mulheres que tenham tido a coragem de encarar um estilo de vida em que não fossem bem vistas pela família e pela sociedade participar da vida pública, expondo seus trabalhos, conquistando admiradores de seu trabalho e fama era praticamente impossível sem que isso viesse acompanhado com especulações de sua conduta moral que acabava prejudicando.
Anita, um escândalo
No início do século XX, houve uma renovação do cenário das artes em diversas partes do mundo. O Modernismo Europeu influenciou essas artistas através de viagens de estudo como,
por exemplo, a Anita Mafaltti que era filha de imigrantes, estes que já traziam uma bagagem cultural diferenciada em relação da que existia no Brasil, foi para a Alemanha em 1910 para estudar na Academia Real e lá teve contato com mestres do Expressionismo daquele período3.
Mais tarde foi para Estados Unidos, em 1915 onde teve vasta inspiração para compor suas obras, além de entrar em contato com o Modernismo Americano ainda sob o efeito do Armory Show4.
Em 1917, Anita Malfatti retorna ao Brasil e realizou uma exposição artística revolucionária que causou muita polêmica, por causa de sua inovação, em retratar personagens marginalizados dos centros urbanos, causando desaprovação nos integrantes das classes sociais mais conservadoras principalmente no meio intelectual envolvendo de um lado a artista e, de outro, o escritor Monteiro Lobato. Ela foi duramente criticada, mas essa exposição de 1917 foi um dos elementos de união entre os modernistas brasileiros para que pudessem se alinhar e promover as transformações de que o Brasil necessitava5.
As críticas podem ter sido tão severas pelo fato da condição de ser mulher, que para a sociedade daquele período, era um caso de extrema ousadia tentar romper com alguns preconceitos6.
Tarsila modernista
Este fato acabou incentivando outras mulheres a fazerem parte do movimento. Uma outra contribuição feminina foi a de Tarsila do Amaral que em 1920 vai para a Europa para estudar na Academie Julian em Paris e passa a freqüentar vários ateliês franceses principalmente o ateliê de Émile Renard.
Em 1922 expõe uma tela no Salão Oficial dos Artistas Franceses por isso, não participa da Semana de 22 no Brasil. Logo depois ela retorna ao Brasil e se une de vez com os intelectuais do grupo modernista. Retorna à Europa em 1923 e passa a ter contato com vários intelectuais do modernismo europeu novamente.
Esse contato comdiversos intelectuais contribuiu para que a Tarsila viesse mais tarde a influenciar seus amigos modernistas a fundarem o Movimento Antropofágico que foi concebido através de uma de suas obras a tela “Abaporu” que significava justamente antropofagia que para eles adquiria o sentido de deglutir a cultura européia para poder se pensar em uma nova forma de arte brasileira, considerando os elementos mais ligados ao povo brasileiro de fato. Com isso a Tarsila passa a ser considerada um dos pilares do Modernismo Brasileiro ao começar a retratar em suas telas as classes menos favorecidas, os trabalhadores, os excluídos, personagens que ainda não eram retratados na arte em épocas anteriores. 7
Pagu, menina-mulher.
Analisando num outro lado do Modernismo, a contribuição de Pagu( Patrícia Galvão) para o modernismo brasileiro foi bem diferente. Teve a sua participação no movimento modernista já consolidado bem depois da Semana de 22, e contribuiu como escritora uma das poucas de seu tempo com o seu livro Parque Industrial em que descreve sobre a realidade do operariado e faz uma crítica a sociedade burguesa devido à sua influência socialista, anarquista. Grande personalidade do feminismo brasileiro que começava a se organizar nessa época tinha personalidade forte, e foi caracterizada nesses anos de mulher libertária, anti-burguesia, rebelde, totalmente fora dos padrões da época.
Ela virou um símbolo da nova mulher que surge com o avanço da economia capitalista e que a sociedade teria que engolir esse novo tipo de mulher atualizada com as vanguardas do mundo. Patrícia Galvão influenciou também as gerações futuras de mulheres feministas, ou as que eram contra a opressão dentro de casa, as amantes (já que seu caso com Oswald de
Andrade quando ainda era casado com Tarsila do Amaral se tornou um escândalo).
Modernas mulheres
Depois de ter exposto um pouco da vida e obra de cada uma dessas artistas, é
necessário fazer uma pequena reflexão sobre o lugar delas para aquela sociedade do início do século XX ainda herdeira de uma sociedade com valores machistas (o que não mudou muito atualmente). Elas acabaram assumindo um caráter de individualidade radicais da arte do país. Essas mulheres não dependiam de suas produções para viver. Sempre eram financiadas pelos pais ou maridos8. Assim elas poderiam se dedicar mais tempo em elaborar uma arte que ampliasse o conceito de arte brasileira.
O cenário das artes e da sociedade começava a mudar. Excluíam-se pouco a pouco as limitações impostas pela crítica intelectual conservadora; eles teriam que se acostumar coma presença da mulher na pintura na literatura e na vida pública. O espaço da mulher estava sendo conquistado em setores onde somente os homens poderiam transitar. Pouco a pouco as barreiras do preconceito foram se rompendo e o panorama da arte brasileira passa a ter um novo
rosto.
Apesar de se tratarem de três modernistas de região de são Paulo, não devemos cair no erro de considerar o Movimento Modernista em si somente através dos artistas que promoveram a Semana de 229. Mas devemos considerar que nessa região as transformações
sociais que estavam ocorrendo nesse período eram o que o capitalismo já tinha feito em outras partes do mundo e historicamente aquela região teve “requisitos” para absorver tais contradições desde o Império.
Assim as mulheres vão pouco a pouco se tornando protagonistas de sua suas vidas
e quem sabe, da história.
1
CHIARELLI, Tadeu. Arte Internacional Brasileira. São
Paulo: Lemos Editorial, 2002, p13.
2
LOURO, Guacira Lopes. Mulheres na sala de aula, In:
DEL PRIORE, Mary (Org.) História das Mulheres no
Brasil. São Paulo: Contexto. 2007, p. 446.
3
BASTOS, Eliana. Entre o escândalo e o sucesso: A Semana
de 22 e o Armory Show. São Paulo: Unicamp, 1991,
p-43.
4
IBDEM, p-43,44.
5IBDEM,
p-45.
CALABRIA, Carla Paula Brondi. Arte, História e
Produção: Arte Brasileira. São Paulo:
FTD, 1997.
8
CHIARELLI, Tadeu. Arte Internacional Brasileira. São
Paulo: Lemos Editorial, 2002, p-21.
9
VELLOSO, Mônica Pimenta. O Modernismo e a questão
nacional. In: FERREIRA, Jorge e ,DELGADO, Lucília. O
Brasil Republicano-O tempo do liberalismo excludente: Da Proclamação
da República à Revolução de 1930.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p-354.